Ensinando busca binária para minha filha

Ajudar os filhos nas tarefas de casa é ao mesmo tempo obrigação (eles não dão conta de estudar sozinhos), com prazer (quando você vê evolução e geralmente é rápida) ou com chateação (quando você está muito cansado e o filho(a) está com preguiça). Admito que geralmente quem ajuda mais é minha mulher, mas quando é algo relacionado a matemática, então quem ajuda é eu mesmo.

Como sou professor (e percebo cada vez percebo gostar mais disso), uso de vez em quando minha filha como “cobaia” para minhas experiências pedagógicas quando algumas idéias surgem na minha cabeça. Vou descrever a experiência que tive hoje no caminho para escola quando resolvi ensinar a ela a técnica de pesquisa binária. Resolvi fazer isso por que no dia anterior, ela teve dificuldade de fazer um exercício de casa e que de certa forma resolvemos facilmente com a técnica citada, mas o nível de compreensão dela sobre o processo de resolução não foi muito bom.

Então percebi que precisava melhorar a compreensão dela, desenvolvendo o seu raciocínio lógico para que ela pudesse ter como instrumento para resolver problemas diversos. Lembrei então de um jogo que geralmente eles fazem no programa de tv video-show em que cada equipe tenta adivinhar um número (por exemplo, quantos anos tem Chico Buarque?) em menor tempo. Interessante que todo cientista da computação sabe que esse problema é resolvível mais eficientemente através de pesquisa binária.

Então resolvi aplicar o jogo com a minha filha Sophia. Disse que iríamos jogar “adivinhe o número que estou pensando”. Eu pedi para que ela pensasse em um número de 1 a 20 e eu tentasse adivinhar. Repeti várias vezes, mostrando para ela que usando a “regrinha das metades”, eu sempre adivinhava o número em no máximo 5 tentativas. Vou exemplificar passo-a-passo para entender melhor a técnica da “busca binária”:

  • 1) Suponha que ela escolha o número 6, sem me dizer;
  • 2) Eu digo: 10 (metade entre 1 e 20);
  • 3) Ela diz: menor;
  • 4) Eu digo: 5 (metade entre 1 e 10);
  • 5) Ela diz: maior;
  • 6) Eu digo: 7 (metade entre 5 e 10);
  • 7) Ela diz: menor;
  • 8 ) Eu digo: 6 (meio de 5 e 7);
  • 9) Ela diz: achou!

O próximo passo foi eu escolher um número e ela ter usado o algoritmo eficientemente. Pedi para ela também que experimentasse de forma aleatória, sem técnica. Com algumas experiências ela percebeu que quando ela utilizou a metodologia era mais rápido. Ela até me perguntou curiosamente: “Pai, este jeito bagunçado de tentar adivinhar pode chegar a quantas tentativas?”; respondi: “Filha, pode chegar no máximo 20 tentativas, mas geralmente chega em média de 8 a 10. Com a técnica, geralmente a gente chega em 4 a 5.”. Na hora, vi os olhinhos dela brilharem de satisfação. Fiquei mais que satisfeito.

O que é interessante é que foi sem computador, sem quadro, papel, nem nada; só através de um jogo que durou no máximo 15 minutos. Ela gostou tanto que perguntou logo antes de deixa-la na escola: “Pai, podemos brincar na volta, com 30 números?”.

Será que aprender lógica seria bom para todo mundo? Depois que assisti uma palestra da Léa Fagundes que defendia que o OLPC deveria ser fornecido para todas crianças para que elas aprendessem programação, fiquei imaginando como seria o nosso mundo se as crianças fossem estimuladas a raciocinar logicamente através de programação, como poderia beneficiar a carreira delas como futuros programadores, engenheiros, médicos, escritores, professores, etc.

Quem sabe algum dia, com colaboração de amigos, possamos escrever um material didático de ensino de raciocínio lógico (com algoritmos) baseado em jogos, de forma que fosse barato e acessível para escolas de todo mundo? Pô, acho que viajei ;-)

Sobre Marcelo Akira

Professor de redes e tecnologias educacionais
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12 respostas a Ensinando busca binária para minha filha

  1. Olá Marcelo,

    Fantastica sua experiência ao auxiliar sua filha. Isso é puro construtivismo. Um dos motivos para se utilizar o computador como ferramenta educacional é justamente desenvolver na criança o raciocinio lógico e estimular a argumentação, infelizmente a educação que ainda persiste em muitas escolas é aquela baseada no que Paulo Freire chamou de “Educação Bancária” onde o professor “deposita” o conhecimento no aluno e este por sua vez apenas armazena sem ao menos saber qual a sua real finalidade. Parabéns pela sua iniciativa.

  2. Marco Antonio Gomes disse:

    Olá Marcelo.
    Ah! Se todos estudiosos tivessem momentos como esse que você teve com sua filha, seria maravilhoso, pois do seu dia a dia encontrou uma forma simples para ensinar a alguém como perceber algo que parece destinado às academias e que é de extrema importante no dia a dia, seja para aplicar no uso da informática, seja para a tomada de decisões.
    Parabéns e continue viajando assim e se algum dia precisar de apoio para criar a cartilha, mesmo que seja um apoio de leitura, revisão e etc pode contar comigo, será um prazer.
    Um abraço.

  3. Marcelo Akira disse:

    Olá pessoal,

    Muito obrigado pela força, quando estiver pronto, pedirei ajuda dos colegas para escrevermos colaborativamente (via wiki, é claro).

    Hoje trago uma novidade. Achei interessante que hoje minha filha tentou achar falha na técnica das metades. Ela tentou achar o que computólogos chamam de “pior caso”, veja:

    ela: (escolheu 20)
    eu: 10
    ela: mais
    eu: 15
    ela: mais
    eu: 17
    ela: mais
    eu: 19
    ela: mais
    eu: 20
    ela: acertou

    Ela me falou que eu estava errado pois o pior caso não resultava em 5 tentativas, mas sim 6. Revisamos a quantidade de tentativas e ela me disse: é, você tem razão pai, é 5 mesmo. Quando ela procurou falha na técnica, tentou achar os extremos, procurando uma compreensão melhor da solução. Considero que a “desconfiança” faz parte do aprendizado e que foi bem mais divertido e interessante do que usar cegamente uma solução.

    Depois ela resolveu curtir com minha cara, usando inicialmente a técnica da metade, mas depois fazendo tudo errado usando acréscimos de um a um. Ela me olhou marotamente e na hora só dei um sorriso. Crianças são como adultos, elas querem mostrar que quando estão sendo testadas, podem testar também, não gostam de ser subestimadas. Sabia muito bem que ela só estava testando a forma “errada” para brincar.

    Ela não sabe teorizar e explicar cientificamente o que ela usa como instrumento, sabe apenas que funciona, por enquanto. Mas acho que talvez o processo cognitivo seja assim mesmo, baseado em busca de uma solução, tentativa de uma técnica, erro ou sucesso, procura por falhas, e aperfeiçoamento/agregação de uma nova técnica. A compreensão e a prova nem sempre acompanham a solução.

  4. Oi Marcelo

    Adorei esta brincadeira fantástica e inteligente que utilizaste com tua filha. Tenho um menino de 10 anos e hj mesmo vou tentar brincar com ele, ele adora desafios.
    Compartilho tbem de sua ideia de trabalhar mais a lógica em sala de aula de formas lúdicas como esta; nossas crianças em sua maioria apresentam uma certa preguiça mental, pois os professores estao muitoa costumados a trazer tudo prontinho e ainda indicar as respostas. Com certeza a introdução dos computadores, com um bom planejmaento e uma preparação profissional qualificada para explorar, trará excelentes resultados a nossas crianças. Inclusive estou lendo um livro do Papert sobre a introdução do Logo e das dificuldades e resistencias que a comunidades escolar cria em torno de uma atividade nova.
    Abraços Andréa

  5. Altamiro disse:

    Akira,
    Rapaz, gostei muito desta idéia. Sempre digo que japonês já vem inteligente por default… risos… Vou treinar meu filho, afinal, embora tenha herdado o lado lusitano do pai, é filho de japa, então pode ser que aprenda logo… risos… Eu fui na wikipedia para ver a questão da pesquisa binária, mas foi demais para meu cérebro médico… he! he!
    Embora não seja “iluminado”, meu menino vale ouro, pois chama-se Kim (embora seja nome de chinês… rs…)
    Grande abraço, SAPS! Altamiro

  6. Lilia disse:

    Marcelo,
    Gostaria de tentar esta técnica com minhas duas filhas. Porém, você não fala na reportagem qual a idade dela. Sugiro que você coloque esta alteração, pois assim, vários pais saberão se podem ou não tentar com seus filhos.
    Também sou cientista da computação e acho que ensinar a lógica para os filhos realmente deve facilitar muito a vida escolar deles. Mas tenho dúvidas sobre QUAL A IDADE ideal para iniciar este ensino.
    Outra coisa que gostaria de saber é sobre livros que possam me auxiliar neste ‘ensino paralelo’.
    Obrigada
    Lilia

  7. Marcelo Akira disse:

    Olá Lilia,

    Boa pergunta. Minha filha tinha 8 anos, ela vai completar 9 anos agora em 27/08.

    Ainda não conheço nenhum literatura que ensine computação para crianças. Ainda sou novato nessa área :-|

    Obrigado pela contribuição.

  8. Diego disse:

    Muito bom, gostei bastante da sua experiencia.

    Abraço.

  9. Ingrid disse:

    ULLLLLLLLLLLLLLL q maximo…
    adorei a maneira q fez…
    grand bju

  10. Kleyton Klaus disse:

    Olá, fiquei fascinado com a sua ideia e com sua posição. Sou aluno do curso de Licenciatura em Computa da Universidade Estadual da Paraíba. E sua atitude e colocação reforção nossos esforçoes em introduzir a computação e o profissional licenciado nesse intento. Tenho plena certeza que jogos que envolvam lógica e progração deveriam ser ensinados nas escolas. Vivemos em um mundo onde devemos conhecer o que nos cerca, afinal, é essa a razão de se ensinar Portugues, Matemática, História, etc. E computação é um universo a parte e sua compreenção é parte para que seja exercida a cidadania e o aperfeiçoamento intelectual.

    Abraços!

  11. Roberto Aurelio disse:

    Parabens gostei muito de brincar com minha filha Leyanne, foi muito legal. um grande abraço.

  12. Anderson disse:

    Muito legal a técnica usada com a sua filha. Hoje trabalho como programador e lembro-me que tinha muita dificuldade com interpretação de texto na escola. Porém após fazer o meu primeiro curso técnico em Processamento de Dados fiquei fascinado com Lógica. Construi imediatamente uma opinião muito parecida com a sua, pois observei que depois de começar a fazer exercícios de lógica, melhorei muito a minha interpretação de texto. Na ocasião eu dava aula em uma escola de informática, e percebi que os meus alunos também melhoraram muito o desempenho nas aulas depois de conhecer a matéria. E várias vezes já defendi a idéia que Lógica deveria ser ensinada nas escolas para todas as crianças. Tenho certeza que eu teria sido bem melhor no colégio.
    Abraço!

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